UMA MANHÃ MUITO RICA EM SALVADOR
Foram três momentos diferentes, numa mesma manhã, na mesma região. Serão mostrados em 3 matérias.
Fui sozinho e assim ficou difícil tirar fotos no percurso.
Aqui o Dique do Tororó onde você muitas vezes foi beber água e não achou.
Ele o único manancial natural da cidade de Salvador, e a sua principal característica são as oito esculturas de orixás flutuando no espelho d'água, obras do artista plástico Tatti Moreno.
Aqui o meu primeiro destino a antiga Igreja da Ordem Terceira da Santíssima Trindade.

O templo fica próximo ao Mercado do Peixe de Água de Meninos que eu vou lhe mostrar depois. O templo contém elementos rococó e neoclássico, que sofreram descaracterização pós um incêndio de 1888.
Tanto a igreja como a área ao seu redor foram cedidos pela Arquidiocese de Salvador para Frei Henrique, uma pessoa com a qual eu tive o privilégio de conviver aqui, quando participava da direção da Fundação e do Colégio 2 de julho, para nele instalar a Comunidade da Trindade, um grupo da sociedade civil organizada que presta atendimento à população de rua.
Frei Henrique Peregrino é um monge católico, protestante e de qualquer outra linha religiosa que você queira rotulá-lo.
Eu o conheci quando aqui vim pela primeira vez, acompanhando um grupo de estudantes de Jornalismo da Faculdade 2 de Julho, para entrevistá-lo após ser ele indicado para receber o Prêmio Jaime Wright de Direitos Humanos e Promotores da Paz.
Em casa falei com Mírian: "hoje eu entrevistei Jesus".
Com Frei Henrique fiz uma matéria em março de 2015 onde escrevi isso:
"As portas da Igreja da Trindade foram reabertas no dia 11 de agosto de 2000 para dar lugar à futura Comunidade da Trindade.
Frei Henrique, como é conhecido, desde a sua mocidade, na França, decidiu desfazer-se de sua condição de abastança para peregrinar em favor de um chamado, de uma missão para qual sentia-se responsável e/ou designado, entretanto, não sabia bem do que se tratava, nem como iria cumpri-la.
Depois de percorrer os quatro continentes pregando princípios cristãos, instalou-se nas Ruas de Salvador nelas permanecendo por mais de 20 anos (Praça da Piedade).
Escreveu um livro intitulado “Peregrinando ao Encontro da Trindade” e quando ele avistou a igreja abandonada ele se deu conta de que a sua missão estava prestes a se iniciar, teve uma espécie de “insight messiânico”.
O contexto sócio-histórico e político da capital baiana da época era o da ideia de higienização das ruas, iniciada nas primeiras décadas do século XX em algumas capitais brasileiras.
Frei Henrique estava ausente, participando de uma peregrinação mas, fui carinhosamente recebido pela Irmã Jaqueline, uma religiosa católica já há mais de 40 anos se dedicando àqueles que foram de fato o foco do ministério de Cristo, levando boas novas a oprimidos, carentes, pessoas em situação de vulnerabilidade e aqueles de quem a sociedade não muito se agrada
Ouvi várias do Frei Henrique: "fazemos parte dos poucos privilegiados que dormem na casa de Deus.

No início da ocupação desse espaço pela Comunidade o templo sequer era totalmente coberto, com parte do telhado destruída.

Muita espiritualidade.

Vários dormem na parte superior da igreja.

O alimento é preparado pelos moradores, sendo as refeições feitas em grupo e a manutenção e a limpeza dos ambientes compartilhadas. As mulheres estavam picando couve quando cheguei.


Aqui o refeitório. Eles se assentam nos bancos, perto daqueles quadros de cor. É feito um sorteio. Tirando-se o vermelho, quem estiver no banco com o vermelho vai se servir. Tirando-se o verde, vai a outra turma...

Comecei a frequentar aqui há cerca de 20 anos. Muita coisa melhorou de lá para cá.

E essas casas não existiam. Alguns deles conseguem inserção no mercado formal de trabalho através de convênios da Comunidade com empresas privadas e aqui têm uma dessas casas em separado, onde assumem o pagamento da água e energia elétrica, e alguns constituem famílias.


Várias moradias. Gostei dessa evolução.

Comprei alguns exemplares da revista Aurora da Rua, por eles produzida. Do Frei Henrique a gente ouvia: " o morador de rua dorme sobre o papelão e se cobre com o medo".

Passei nesse supermercado e comprei algo diferente para os abrigados.

Optei por coisas diferentes. Nada de arroz, feijão, macarrão... Preferi caixas de bombons, pacotes de balas, pirulitos e biscoitos.

Recusei o convite de almoçar com eles, por ter mais coisas pela frente.

Fechando os meus comentários; inicialmente eles atendiam apenas dependentes químicos em situação de vulnerabilidade. Atualmente também recebem idosos cujas famílias têm dificuldades em atendê-los.
Nesse atendimento a ambos os grupos são observados os seguintes passos:
1. O primeiro passo é o do alimento: trata-se de saciar a fome, alimentar, compartilhar a refeição e participar no preparo das mesmas, pondo fim à mendicância por comida.
2. O segundo passo diz respeito ao acolhimento dos recém-chegados, independentemente de sua situação – estes poderão ser hóspedes ou membros da Comunidade.
3. O terceiro passo é o cuidar: investir tempo na regularização da documentação civil do morador de rua e/ou no restabelecimento de sua saúde. 4. O quarto passo compreende a conquista do sustento via geração de renda: os membros da Comunidade produzem arte sacra e cultivam flores e frutos para a venda, fazem a coleta de papelão para a reciclagem e vendem a revista Aurora da Rua, produzido por eles mesmos.
5. O quinto e último passo é o da moradia e representa a ruptura com a situação de rua.
Mírian brigou comigo por ter ido lá sem ela. Vou voltar com ela semana que vem, quando Frei Henrique já estará de volta.
Faltou outra coisa: segundo a Irmã Jaqueline, dentre os voluntários eles recebem semanalmente uma médica de mais de 80 anos que aqui chega de taxi e depois de 4 horas de atendimento ela volta de taxi para atender no Hospital Irmã Dulce.




Que belo trabalho voluntário! Fazer o bem sem olhar a quem!
ResponderExcluirParabéns pela visita e divulgação.
ResponderExcluirFui abençoada por conhecer o trabalho cristão pleno do Frei Henrique. Que o nosso Pai dê a ele saúde e longa vida para muitos ainda lutar pelos valores do Reino de Deus aqui na terra.
ResponderExcluirCélia Paradela
Eu conheço bem esta bela, inspiradora e desafiadora história. Parabéns Cleber ( Milton-IPU)
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