A REFORMA PROTESTANTE

As Principais Contribuições da Reforma Protestante ao Cristianismo:

Em 2018, mais especificamente em 31 de outubro, a Reforma Protestante completa 501 anos de existência. O marco histórico inicial data-se de 31 de outubro de 1517, quando Martinho Lutero disponibilizou para o debate teológico, como de costume em sua época, 95 teses, na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, na Alemanha.
Nessa reflexão, que me foi “encomendada” pelo blog EMBELISARIOMG, não quero me ater às informações históricas, facilmente encontradas nos diversos livros e textos sobre o tema. Pretendo enfatizar as principais contribuições que a Reforma trouxe ao cristianismo, e, como esses legados podem fortalecer a nossa trajetória após cinco séculos de existência.
Quando falamos em Reforma, uma das preocupações que vem à tona é a tentativa de recuperar valores que estavam presentes no seu nascedouro, e, por razões diversas foram se desgastando com o tempo. Isso ocorreu também no cristianismo. Nasceu tendo a simplicidade, universalidade e a inclusão, como valores centrais, e foi se distanciando, com o tempo, pelas trilhas da exclusão, imposição e poder.
Há uma herança significativa na fé cristã conforme relato dos Evangelhos, que merece sempre ser retomada como inspiração para a vida. Para nos certificarmos disso, basta revermos o anúncio do anjo Gabriel a Maria, moça simples, disponível a Deus, comunicando-a de que seria mãe de uma criança de dimensões divinas e humanas (Lucas 1.26-31).
O nascimento dessa criança numa estrebaria (Lucas 2.1-7) confirma essa tese. Lugar simples, de livre acesso a todos. Os pastores de carneiros (Lucas 2.8-19), podem ir até lá, mesmo com as ressalvas religiosas que lhes eram feitas por causa da “impureza” do ambiente de trabalho no contato constante com animais.
Da mesma forma, só uma estrebaria, poderia acolher os pesquisadores dos astros, “magos”, que não tinham os mesmos valores culturais e nem religiosos (Mateus 2.1-2). Esses, foram autênticos ao afirmarem que viram sinais diferentes nas estrelas, parte do campo de pesquisa, e decidiram vir para presentearem e prestarem culto ao recém-nascido. Tudo isso ratifica o anúncio dos anjos: “Não temais, eis aqui vos trago boa nova de grande alegria, que o será para todo o povo” (Lucas 2.10). 
É nessa mesma perspectiva de inclusão que o Evangelho registra a abertura de Jesus Cristo a todas as pessoas dizendo: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mateus 11.28). Os primeiros cristãos escritores creram nessa dimensão. O Apóstolo Paulo, por exemplo, o que mais se dedicou aos escritos sobre os feitos e a missão de Jesus Cristo, chegou à convicção de que:“em Cristo não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3.28).
Quando se referiu ao perdão de pecados, situação que trazia sérias angústias às pessoas, pelo sentimento de culpa que provoca, afirmou: “justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Romanos 5.1).
Inegável que toda essa herança de fé, carregada de inclusividade, teve muitos prejuízos com os Éditos de tolerância emitidos pelos Imperadores Romano em 311 e 313 d. C, e, mais ainda, quando foi oficializada como a religião do império, em 380 d.C., pelo Imperador Teodósio I. Passou então a ser instrumento de imposição a povos conquistados, clericalizou-se demasiadamente, e distanciou-se, profundamente de suas bases originais.
A Reforma do século XVI teve como principal meta recuperar alguns aspectos do cristianismo nascente, nunca criar outra religião. É possível que tenha falhado em algumas das estratégias, e, é inegável, que cometeu equívocos no transcorrer da história. No entanto, a Reforma, trouxe ao cristianismo e ao universo religioso, contribuições relevantes:

1.            A busca da paz com Deus pela fé; supremacia da Teologia da Graça de Deus sobre a Teologia da Culpa e do Terror;
2.            A proposta do “Sacerdócio Universal”: “Vós sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus” (I Pedro 2.9). Tese, que não desvaloriza o clero, mas reduz o sentimento de dependência dos leigos. Enfatiza a necessidade do cuidado de todos para com todos;
3.            A nova visão de educação. As escolas tidas como espaços seletivos para a ascensão social, passaram a serem vistas como instrumento de Deus para o abençoamento de todas as pessoas. Por elas, pela alfabetização, as pessoas teriam acesso à leitura. Poderiam, entre outros, ler a Bíblia e assim aperfeiçoarem as relações consigo mesmas, com os outros e com Deus;
4.                O rompimento com a ideia de exclusividade de posse das verdades religiosas para a busca do diálogo entre as tradições do próprio cristianismo e com outros segmentos religiosos e sociais.
Todos esses aspectos não representam novidades em si, mas, utilizando da linguagem apocalíptica seria uma: “volta ao primeiro amor”! (Apocalipse 2.4).

O Rev. Messias Valverde é Mestre em Teologia, pela Universidade Metodista de São Paulo, Doutorado pela  FAJE (Instituição Católica Jesuíta/ BH); Pós Doutorado, pela UFJF, em Ciências da Religião. Pastor Metodista e professor universitário aposentado.

                                              

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